Os Irmãos Lumière, e a invenção do cinema
“Em 1895, concretiza-se um dos maiores sonhos da Humanidade. O ser humano e seu “alter ego cronofotográfico” encontram-se frente a frente, um sentado na poltrona de uma sala escura, o outro movendo-se numa tela, embora ainda mudo. Como se um olho cujas pálpebras viessem se abrindo lentamente, durante séculos, agora se arregalasse para o mundo. Um olho dotado de superior acuidade, não apenas capaz de apreender a vida em seus mínimos detalhes – o que Marey e Edison já sabiam fazer há algum tempo – mas sobretudo de projetá-la numa tela. Inicialmente “Edison contentava-se com o tilintar das moedas. Ele jamais deu muita importância ao último “acréscimo” técnico, que, segundo suas próprias palavras, mataria “a galinha dos ovos de ouro” - isto é, o Quinetoscópio a tostão.
Demeny e outros também se debruçaram nessa questão, sem resultados decisivos. Somente Reynaud, com suas tiras perfuradas e pintadas à mão, havia conseguido projetar cenas longas e animadas”. Laurent Mannoni, A Grande Arte da Luz e da Sombra, página 405. Essa projeção foi feita através do Cinematógrafo, um aparelho registrado na história como o equipamento que pela primeira vez fez uma projeção de fotografias por transparência.
Nasceu assim oficialmente o cinema em Paris, no dia 28 de dezembro de 1895, no Grande Café, situado no Bulevar dos Capucinos, número 14. A data está registrada por uma placa onde se lê: “Aqui em 28 de dezembro de 1895 teve lugar a primeira projeção pública de fotografias animadas”.
É muito raro que uma invenção brote de repente de forma definida. O nascimento do cinema, que a tradição historiográfica identifica como a soirée Lumière no Grand Café do Boulevard des Capucines, a 28 de dezembro de 1895, é, na realidade o resultado de uma série de pesquisas e técnicas convergentes que vêm de muito antes do físico belga Joseph Plateau,(1) do “Revolver Fotográfico” de Jules Janssen, da “Metralhadora Fotográfica” do Dr. Etienne-Jules Marey, do Fonoscópio de Demeny, do Teatro Óptico de Emille Raymaud na França; do Quinetoscópio (2) de Edison na América; de Friese Greene na Grã-Bretanha, de Skladanowski na Alemanha e de outros que tiveram menos notoriedade.
Vem também do inglês Richard L. Maldox que formulou a emulsão fotográfica seca, da emulsão fotográfica ortocromática desenvolvida pelo professor Hermann Wilhem Vogel em Berlim, de Hannibal Goodwin na América, que criou uma película flexível de nitrato de celulose batizado como filme e da evolução das objetivas desde a idade média. Foi da somatória dessas invenções, que fizeram sucesso cada um no seu tempo, e a persistente vontade dos Lumière em criar um aparelho que captasse imagens reais, que nasceu o Cinematógrafo, o aparelho que deu início ao cinema como até hoje é visto e assistido.
Inventivos e persistentes perseguidores da fotografia em movimento desde a adolescência, os industriais e fotógrafos, irmãos Lumière não só criaram a Câmera de Filmar como também uma forma de transformá-la em um aparelho capaz de projetar as imagens filmadas por ela. E “esta reversibilidade do mesmo aparelho, foi um dos fatores que permitiram o seu sucesso” Guy Fihman, A Magia da Imagem, pg 47 O Cinematógrafo era Lanterna Mágica e Câmera Fotográfica.
Mais não se pode negar que de todas as invenções que antecederam e influenciaram os Lumière na criação do Cinematógrafo, foi o Quinetoscópio de Thomas Edson a que mais estimulou os irmãos Auguste e Louis. Porém no Quinetóscopio uma coisa não os satisfazia. As fotos que reproduziam movimentos só podiam ser vistas por uma só pessoa, com um olho só, através de um orifício com uma lente para ampliar as imagens.
Achavam exagerado uma máquina tão grande só servir para um só espectador. (“Edson com o Quinetoscópio preferiu tirar proveito da curiosidade dos “voyeurs” fazendo-os pagar um a um.
O raciocínio não estava errado, já que o Quinetoscópio lhe proporcionou uma bela fortuna” Laurent Mannoni, A Magia da Imagem, pagina 161) e começaram a imaginar um aparelho que dentro de um salão projetasse imagens para muita gente ao mesmo tempo, como já era feito pelo “Teatro Óptico” de Èmile Reynaud, em 1889, um verdadeiro espetáculo, que atraía multidões no Museu Grévin, em Paris, projetando imagens pintadas à mão em tiras flexíveis de papel perfurado, capazes de reproduzir movimentos com precisão quase exata, mais não momentos da vida real, que era uma obsessão dos Lumière, principalmente Louis, que aos dezesseis anos, ao fotografar o mar, se sentiu frustrado com a fotografia não reproduzir as ondas com seu movimento real.
Teatro Óptico de Émile Reynaud
Com seu mecânico Chales Moison, fabricaram o “Aparelho de Cronofotografia” (um derivante do Quinetoscópio de Edson) com intenção de projetar imagens onde 12 fotos fixadas numa fina fita de papel reproduziam movimentos.
Em setembro de 1894 quando fizeram a primeira projeção constataram que a fita de papel que eles usaram como suporte para as fotografias, se esgarçava, se rompia e a projeção além de não ter boa transparência, as imagens não eram nítidas.
Tentaram depois a mesma experiência numa fita de tecido produzido na própria fábrica de produtos fotográficos Lumière. Mas a fita de tecido, também tinha pouca transparência, pouca nitidez, a emulsão fotográfica não se fixava bem no tecido e resistiu somente a cinco projeções.
Notaram que nas duas tentativas em papel e em tecido, no arrastamento das fitas por fricção entre dois rolos, os fotogramas na projeção não caíam no mesmo lugar e cintilavam. Durante a exibição deduzem que precisam de uma fita que além de forte para não se romper durante as filmagens e projeção, pudesse ser tratada de forma que o tempo não apagasse as imagens. Abandonaram o projeto do projetor.
Como fotógrafos priorizaram construir um aparelho capaz de fotografar 16 quadros por segundo. Que puxasse uma película, deixasse essa película parada para ser exposta como numa fotografia comum, puxasse novamente a película, deixasse parada novamente, intermitentemente.Precisavam de um mecanismo que fizesse essa operação de puxar, parar e puxar de novo, tanto na filmagem, como na projeção.
Louis imaginou um mecanismo vendo por acaso uma funcionária da fabrica trabalhar com uma máquina de costura. Observando que o tecido parava quando a agulha penetrava no tecido, e quando a agulha saia o tecido andava, teve a idéia de fazer um dispositivo que fizesse com o filme o mesmo movimento. Junto com o irmão Auguste criou uma câmera fotográfica adaptada com uma manivela que acionava uma biela (hoje chamada grifa) constituída de duas garras. Esta manivela estava presa a uma roda grande dentada. Quando o operador girava a manivela, a roda grande acionava a roda menor e esta fazia a grifa puxar o filme. Ao mesmo tempo um eixo também ligado à manivela, abria um obturador no tempo certo para a exposição da película, enquanto a grifa buscava novo fotograma.
Previram que a fita deveria ser transparente, flexível e forte para não se romper durante a projeção, (para isso, a fita precisava também de uma folga para não se romper quando parava para ser exposta) que tivesse aderência para nela ser colocada uma emulsão fotográfica, que devia ser perfurada nos dois lados e arrastada entre rodas dentadas, pois só dessa forma teria um arrastamento absolutamente matemático.
Mas existiam outros problemas. O primeiro era encontrar uma película perfurada que resistisse às projeções e também ao tempo. Essa fita não existia na França.
As fitas de celulóide de 10 a 15 metros que precisavam, só eram encontradas na América, fabricadas pela New York Celluloíde Company.
Embora sendo muito perigosa pois entrava em combustão com enorme facilidade, eles notaram que era o suporte ideal para a emulsão fotográfica fabricada por eles e aceitaram o perigo como necessário para a realização do projeto. Mandaram para a América um funcionário com a missão de comprar a fita.
Em dezembro de 1894 um modelo do Cinematógrafo já estava pronto. Eles se colocaram na frente de sua fábrica e filmam o primeiro Sortie d’usine (saída da fabrica).
A filmagem foi feita sem que ninguém soubesse. Quando o portão se abriu e os operários começaram a sair, Louis girou com extrema regularidade a manivela do Cinematógrafo e rodou o primeiro filme da história do cinema mundial.
A exibição ocorreu sobre lençol branco estendido no meio da sala da casa dos Lumière. Estavam presentes Chales Moisson, mecânico da fábrica, Promio o jovem encarregado pela compra das fitas na América e amigos. Para esses, o convite do Antoine Loumière foi lacônico: - “Venham às dezenove horas. Uma surpresa os aguarda.”
Depois dessa filmagem e dessa projeção, outras saídas da fábrica foram feitas.
Em 13 de fevereiro de 1895 foi registrada a patente da invenção.
Em 22 de março, o aparelho é apresentado à Sociedade de Incentivo a Indústria Nacional, da França. Nessa ocasião o Louis fez uma conferência sobre os produtos industriais da Sociedade Anônima de Chapas Lumière, onde exibiu chapas fotográficas positivas e chapas colorizadas pelo método Lippmann.e projetou uma cena das mais curiosas: operários saindo da fábrica na hora do jantar. A cena, que não durou mais de um minuto, tinha cerca de 800 imagens sucessivas; havia de tudo nela: um cachorro indo e vindo, ciclistas, cavalos, um coche em acelerado trote, etc.”
Este pedaço da vida cotidiana, “essa representação do real” tão cheia de animação, foi a pedido, exibida muita e muitas vezes. Ninguém na Europa nem nos Estados Unidos havia conseguido o intento com tamanha eficiência antes dessa sessão histórica de 22 de marco de 1895.” Laurent Mannoni, A Grande Arte da Luz e da Sombra, página 414
Em 30 de março é feito o registro de modificações e melhoramentos já com a palavra Cinematógrafo.
Pouco mais de dois meses depois, a 10 de junho, em Lyon, num congresso da Société Française de Photographie, o impacto é bastante maior. Na véspera os participantes tinham sido filmados num passeio de barco. E foi isso que eles viram depois na projeção. Entre as pessoas que se moviam na tela havia dois congressistas importantes: o astrônomo Jules Janssen falando com o presidente do congresso. Tratava-se do primeiro efeito mediático produzido por uma máquina de filmar. Na projeção, ambos se esconderam por trás da tela, reproduzindo a conversa em voz alta. Seria também a primeira dublagem da história do cinema.
Em 22 de setembro o cinematógrafo foi apresentado para cento e cinqüenta convidados. O evento aconteceu na Société d’Encouragement pour I’Industrie Nationale
Em 28 de dezembro, aconteceu a primeira grande exibição pública no Salão Indiano do GRAND CAFÉ no bulevar Capucines, número 14
A projeção começa com uma imagem fixa. Um espectador manifesta seu mau humor: - “Outra vez a lanterna mágica!”. Moisson gira a manivela. A imagem anima-se. Dez filmes foram projetados nesse dia.
Nesse primeiro dia de exibição foram arrecadados 35 francos, com 35 espectadores assistindo dez pequenas fitas de 16 metros cada uma.
Nessa primeira sessão paga, entre a série de filmes exibidos, o primeiro foi novamente “La Sortie des Usines Lumière” (Saída das Fábricas Lumière). No grupo dos filmes dessa sessão mostrou-se também a primeira comédia da história, “L’Arroseur Arrosé” (O Regador Regado), a primeira cena familiar, “Le Deujeuner du Bebé” (O Almoço do Bebê) e “L’Arrivée du Train em Gare” (A chegada do Comboio à Estação). Neste último filme de alguns segundos de duração, via-se um trem vindo em direção à câmera, parando e a descida dos passageiros. Tal foi o susto dos espectadores dessa primeira sessão ao verem um trem vir em direção a eles, que se instalou o pânico. Levantaram-se aos gritos e desviaram-se do caminho, com medo que o trem lhes passasse por cima.
A fotografia desses filmes era de uma nitidez surpreendente.
Câmera de Lumière e cena da Saída da Usina
Os historiadores Martin Loiperdinger e Roland Cosandey descobriram uma carta datada de 16 de abril de 1896 e escrita por Ludwig Stollwerck, antigo sócio alemão de George Demeny, na qual ele descreve uma visita sua, ao Grand Café:
“Nesse espaço de 12 por 8 m, eles projetam dez vistas diferentes a cada quarto de hora, cada qual com duração de cinqüenta a sessenta segundos, sobre uma parede de 2,80 de largura por 2 m de altura. O ingresso custa 1 franco, há cento e oitenta lugares e cerca de trinta a quarenta espectadores em pé.” Laurent Mannoni, A Grande Arte da Luz e da Sombra, capítulo 5, página 446
O êxito conseguido em Paris foi muito rápido e levou os irmãos Lumière a abrir outras salas nas grandes cidades francesas e também no exterior.
Em 17 de fevereiro 1896, Londres recebeu o cinema. Depois, Bruxelas, Berlim, Nova York.
Durante muito tempo funcionários dos Lumière com as funções de operadores e vendedores, andaram pelo mundo propagando e vendendo as câmeras, filmando, revelando, copiando os filmes feitos durante o dia para exibirem imediatamente nos palcos de teatro e outros espaços de diversões, durante a noite. Através de seu aparelho desempenharam um papel muito importante para o início de um dos maiores meios de comunicação, cultura e diversão do mundo.
1 - No ano de 1829 o físico belga Joseph Plateau afirmava que uma imagem luminosa persiste na retina mesmo quando deixa de ser vista durante 1/45 de segundos. E que para o cérebro, imagens repetidas a um ritmo “superior a doze por segundos” passam a impressão de que se sucedem ininterruptamente.
2 –. O primeiro quinetoscópio (Kenetoscope) foi inaugurado na Broadway a 14 de abril de1894 com filmes rodados em película de 35mm. O aparelho era uma caixa com 1 metro e vinte e três centímetros de altura, olhava-se para dentro através de uma abertura feita na parte de cima. Uma lente ampliava as imagens do filme com comprimento de 15 metros, que se desenrolava de modo contínuo em forma de inta.
(Kenetoscope)
O quinetoscópio Edison. A porta lateral aparece aberta para mostrar o mecanismo interno. Em funcionamento normal, a porta permanece fechada.
Com todo equipamento pesava 75 quilos aproximadamente
3 – “Lanterna Mágica era, na realidade, uma máquina simples, uma espécie de pequena caixa munida de uma fonte de luz, um espelho côncavo posterior e um sistema de lentes que permitia projetar sobre uma superfície branca as imagens ampliadas de vidros pintados com cores transparentes”.
Bibliografia
O Cinema, Invenção do Século - Emmanuelle Toulet
Os Irmãos Lunière, A invenção do cinema – Jacques Rittaud-Hutinet
A Magia da Imagem – Coordenação José de Monterroso Teixeira
A Grande Arte da Luz e da Sombra. – Laurent Mannoni
Waldemar Lima
Diretor de Fotografia – ABC
fonte: http://www.luzcamera.com.br/?p=106