22 dezembro 2010

Alceu Valença vai estrear como diretor de cinema

Estado de Minas, por Ailton Magiolli

Preparando-se para concluir, no agreste pernambucano, as filmagens de Luneta do tempo, o primeiro longa-metragem escrito, dirigido e musicado por ele, Alceu Valença, de 64 anos, quer falar inicialmente de sua principal atividade. "Vamos falar de música", reivindica o cantor, compositor e instrumentista, apavorado com o que chama de assassinato da música popular brasileira. "Até para cantar nossas raízes africanas (congado, samba e outras manifestações), temos de passar pela matriz da soul music norte-americana", protesta ele, que, desde que decidiu tocar a carreira por contra própria, em detrimento do fim do contrato com gravadora, tem trabalhado mais do que nunca, gravando e lançando discos paralelamente aos shows.

Para se manter independente em um mercado fonográfico eternamente em crise, o irrequieto Alceu diz ter criado três formatos de shows com os quais tem circulado o Brasil e o mundo. Com a performance carnavalesca, por exemplo, ele comanda o reinado momesco de Olinda a Recife, apresentando-se ainda em outras cidades da região metropolitana da capital pernambucana. Já o show de São João, Alceu leva para o país inteiro, depois dos festejos juninos oficiais do Nordeste, onde se tornou o dono das quadrilhas. Finalmente, violão em punho, ele também explora o formato acústico, com o qual voltou a Minas, no fim de semana, para cantar, em Santa Bárbara, os incontáveis sucessos da consagrada carreira de 42 anos.

Festival consagrado

Na passagem por Belo Horizonte, o falante Alceu revelou que a empresária Yane Montenegro, com a qual vive um feliz casamento, vai produzir em Pernambuco uma edição do consagrado Montreux Jazz Festival, originário da Suíça, provavelmente entre novembro de 2011 e janeiro de 2012. O cantor, que se apresentou em quatro edições do festival (1982, 1989, 2001 e 2005), cujos concertos serão lançados por ele em DVD, diz que no Nordeste eles vão ocorrer desde o Teatro Guararapes, de Olinda, até o Marco Zero, do Recife. Depois de eleger por duas vezes consecutivas um presidente da República, a região tem tudo para voltar a chamar a atenção do mundo. Em comum entre Alceu Valença e Luiz Inácio Lula da Silva, a região de origem: enquanto o primeiro vem de Garanhuns, o segundo é de São Bento do Una, ambas cidades do agreste pernambucano.

E é lá que o cantor está rodando o longa-metragem Luneta do tempo, que vai marcar sua estreia nas telas como diretor, depois de atuar em A noite do espantalho, de Sérgio Ricardo, em 1974. Definido pelo próprio Alceu como um musical, o filme é uma espécie de cordel cinematográfico, com o roteiro todo escrito por ele em rimas. “Deu um trabalho profundo, para não ficar bobo”, confessa. Na tela, ícones da cultura nordestina como Lampião e Maria Bonita (interpretados pelos atores Irandhir Santos e Hermila Guedes) se mesclam a discussões sobre o tempo, a transitoriedade das coisas e a tragédia humana. Para se ter uma ideia do envolvimento de Alceu com a obra, só laptops ele diz ter gasto três durante as filmagens.

“Foi muito bom, mas doeu em mim. Dormia e acordava com os personagens falando comigo. O meu próprio casamento quase acaba, porque a mulher já não aguentava mais”, revela.. Do vendedor de coco ao intelectual, todo mundo ouvia ele falar do filme. Com o laptop sobrevivente sobre a mesa da casa do coprodutor Paulo Rogério Lage, em Belo Horizonte, ele passa e repassa cenas de Luneta do tempo, de ritmo e planos surpreendentes. Cinematográfico no próprio ato de compor, na aridez do agreste pernambucano Alceu parece ter encontrado a luz e o cenário perfeitos para a trama, na qual ele botou a própria família para trabalhar.

O elenco de apoio do filme inclui desde artistas populares nordestinos até amigos, funcionários e familiares. Caseiro, mecânico, filhos, irmãos, todo mundo se juntou ao cantor para dar vida ao longa-metragem, orçado em R$ 4 milhões e viabilizado pela Lei do Audiovisual. De Minas Gerais, além do coprodutor Paulo Rogério Lage, ele levou para o projeto Elza Cataldo (pré-produção e assistência de filmagem), Felipe Fernandes (assistente de direção), além de câmeras. De olho na agenda de festivais internacionais de cinema, como o de Cannes, da França, o diretor aposta: “Evidentemente, que deve dar um feedback”.

Alceu só não tem noção, ainda, se vai dar continuidade à carreira cinematográfica, paralela. “Não sei se quero fazer novos roteiros, esse demorou demais”, afirma, contabilizando uma década de trabalho. A trilha sonora de Luneta do tempo, no entanto, levou o artista a distribuir as canções que sobraram. “Fui para o estúdio e fiz toda a trilha (em métrica) com as falas dos personagens”, ressalta, recordando das cerca de 100 canções compostas. Com lançamento previsto para o segundo semestre de 2011, o longa-metragem está em processo de montagem.

Foi no enterro do pai, na pequena São Bento do Una, de cerca de 4 mil habitantes, que Alceu Valença decidiu fazer da terra de origem familiar cenário de sua estreia como diretor de cinema. Afinal, foi lá que ele viu as lendárias sessões de sombras, exibidas e encenadas pela própria mãe. Mais tarde, já na universidade (graduou-se em direito), no Recife, teve tempo e oportunidade de se aprofundar na magia das telas, guiado por mestres como Jean-Luc Godard, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini, entre outros gênios da sétima arte.

Fonte: Portal Uai
http://www.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?materia=20101207101014&assunto=99&onde=Vive

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