24 maio 2010

Cineclubismo da Paraíba, panorama histórico I

“O cineclube oferecido pela Organização das Voluntárias às famílias da cidade encontrou um simpático acolhimento. Todos querem compreender a linguagem específica do cinema, sua arte e sua técnica, para estar à altura de assimilar o seu potencial educativo e cultural. Estão inscritos mais de 130 sócios, das mais distintas famílias. Houve de início um descontrole imprevisto. Dois filmes anunciados não chegaram a tempo de Recife. Não foi possível continuar as projeções no auditório da Rádio Tabajara. Esses contratempos lamentáveis no lançamento de um cineclube não desanimaram seus organizadores nem os sócios inscritos. O cineclube vai continuar todas as sextas-feiras no Salão de Festas da Casa do Calvário. As sessões começarão impreterivelmente às dezenove horas para permitir um debate após os filmes de conteúdo mais rico. Para o dia 20 teremos ‘A Pérola’, obra-prima do cinema mexicano.” (Correio da Paraíba, em 16 de novembro de 1953)

E assim começava a história do cineclubismo na Paraíba, no citado ano de 1953, com o surgimento do Cineclube João Pessoa, primeiro de muitos que apareceram na capital e pelo interior, uns mais e uns menos longevos, especialmente nas décadas de 1950 e 1960. Tendo começado principalmente pela iniciativa da Igreja Católica - que selecionava fitas cujos temas pudessem servir aos seus propósitos catequizadores, reuniu várias pessoas que já se interessavam em estudar o cinema (a primeira exibição em João Pessoa deu-se ainda em 1897, muitas curiosidades foram atiçadas desde então), vindas majoritariamente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Artes e, depois, do curso de comunicação da Universidade Federal da Paraíba. A ACCP (Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba), surgida em 1955, teve papel fundamental na história do cineclubismo do estado, e reuniu em torno da discussão crítica do cinema e de sua produção nos anos 60 jovens que hoje são figuras indispensáveis na memória do cinema brasileiro, como Linduarte Noronha, João Ramiro Melo, Manfredo Caldas e o próprio Vladimir Carvalho.

Seguindo o fluxo do restante do país, os cineclubes tiveram uma ascensão nas primeiras décadas após a primeira sessão, mas durante a ditadura militar foram muito perseguidos, pois eram pontos potenciais de articulação de oposição ao regime – o que de fato acontecia, a exemplo do Cineclube Charles Chaplin e do Cineclube Linduarte Noronha. Nos anos 80, no entanto, e tal como no restante do país, é que veio a derrocada maior. Poucas eram as iniciativas de exibição de filmes fora do circuito, como era o caso do Cine Bangüê, na Fundação Espaço Cultural (governo do estado). A partir dos anos 90 essas sessões foram ressurgindo aqui e ali, ainda que não na forma de cineclubes propriamente ditos – na UFPB e no SESC, por exemplo, eram feitas exibições de filmes variados, curtas, longas, nacionais, estrangeiros.

Já nos anos 2000 a Aliança Francesa também foi parceira em iniciativas que findaram por dar origem ao hoje chamado Tintin Cineclube. Foram realizadas mostras de filmes em ocasiões diversas, dentro de projetos tais como ‘projétil 16’ (exibição de filmes em 16mm, contando com o projetor da Aliança), e em maio de 2004 o Tintin se formalizou como cineclube, com exibições periódicas dentro da Aliança Francesa de João Pessoa.

Em 2005, comemorando os 50 anos da ACCP, a ABD-PB realizou em parceria com a FUNJOPE (Fundação Cultural de João Pessoa) o Seminário ’50 anos de cinefilia e crítica de cinema na Paraíba’, homenageando também o cineasta Vladimir Carvalho no ano em que completava seus 70 anos. O evento foi realizado no Teatro Lima Penante, do Núcleo de Teatro Universitário da UFPB, onde ainda em novembro desse mesmo ano  foi inaugurado o Ponto de Cultura Urbe Audiovisual, da ABD-PB, e onde passou a funcionar o Tintin Cineclube (adotado pela associação), em sessões semanais, não mais exclusivamente em 16mm e dando especial ênfase ao filme de curta-metragem. O cineclube funciona no mesmo local desde então e costuma exibir semanalmente, além de fazer sessões de lançamento de filmes paraibanos e nacionais uma vez ao mês.

No próximo post, panorama histórico II;  

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